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Estrangeiros ocupam espaço no Brasil


Lisboa — Se o número de brasileiros dispostos a viver e a trabalhar no exterior não para de crescer, também é recorde o registro de estrangeiros que decidiram trabalhar no Brasil. Segundo a Fragomen, empresa especializada em migração e mobilidade internacional, as autorizações para trabalhadores vindo de fora concedidas pelo governo aumentaram 81% entre janeiro e novembro deste ano, quando comparadas a igual período de 2021. "Há um fluxo importante de trabalhadores estrangeiros para o Brasil. Em 10 anos de atuação no país, nunca vimos tanta demanda", diz a CEO da companhia, Diana Quintas. Pelos dados consolidados da Fragomen, apenas nos primeiros seis meses de 2022, mais de 10 mil trabalhadores estrangeiros entraram no Brasil, sendo que 25% dos vistos foram dados para tripulantes de embarcações que atendem a indústria de óleo e gás. Esse número, ressalta Diana, não inclui os técnicos que também trabalham no setor. "No Brasil, o segmento de óleo e gás é o segundo que mais emite vistos de trabalho temporário para estrangeiros atuarem no país, atrás somente de técnicos em geral", afirma. "Estamos falando de uma indústria que possui um alto grau de cooperação técnica entre países e, por isso, conta com grande volume de mobilidade global de profissionais", acrescenta.


Apesar de fluxo crescente de mão de obra estrangeira para o Brasil, a presidente da Fragomen lembra que o total de trabalhadores vindos de fora ainda representa muito pouco do mercado como um todo. "Não deveria ser assim, muito pelo contrário. A mão de obra estrangeira especializada agrega conhecimento ao país e capacita muita gente. Não por acaso, vários países estimulam a imigração desses trabalhadores", ressalta a executiva. No total, apontam os levantamentos do Ministério da Justiça, há pouco mais de 1 milhão de estrangeiros morando regularmente no Brasil, aí incluídos os refugiados. Representam apenas 0,47% da população atual do país. O auge dos estrangeiros vivendo em território brasileiro se deu no início dos anos de 1900 — chegaram a ser quase 7% da população.


Demanda diversificada

Para Renato Martins, CEO da Martins Castro, com sede em Lisboa, quanto maior for a participação de trabalhadores estrangeiros num país, mais dinâmica e inovadora é a economia. "Vivemos um processo de mundialização da mão de obra. As pessoas deixaram de se identificar com a nação em que nasceram. Além disso, há um movimento de desmaterialização, com um telefone ou um computador pode-se trabalhar de qualquer parte do mundo", afirma. No entender dele, nem mais a língua funciona como barreira, como 10 anos atrás. "Há cursos e aplicativos que permitem um aprendizado rápido", ressalta.


Ele lembra, ainda, que há demanda mundial por todo tipo de mão de obra. Nos Estados Unidos, a procura é por profissionais de tecnologia da informação (TI). No Reino Unido, onde está o maior contratante mundial, o sistema público de saúde, médicos e enfermeiros são muito bem-vindos. Portugal está ávido por trabalhadores da área de serviços, especialmente para o turismo, com forte participação na economia local. No Oriente Médio, precisa-se de tudo. A Austrália, por sua vez, procura profissionais braçais, sobretudo para a construção civil. "O Brasil, portanto, não tem como ficar de fora dessa rede", acredita.

CEO da Humanare e especialista em desenvolvimento humano e organizacional, Adriana Schneider acredita que o movimento de internacionalização de mão de obra é irreversível. "Isso vale tanto para os brasileiros que estão se aventurando mundo afora, quanto para os estrangeiros que buscam oportunidades no Brasil", diz. Ela reconhece, contudo, que os profissionais mais qualificados acabam se sobressaindo dentro desse processo. "Nesses casos, os movimentos migratórios são mais tranquilos", acredita. Esse grupo inclui, inclusive, os nômades digitais, que vêm sendo disputados por muitos países. Pelo menos 30 deles, incluindo o Brasil, dispõem de legislação específica com incentivos para atrai-los.


Na opinião de Diana Quintas, da Frogomen, o Brasil se preparou para entrar nesse mundo de disputa por trabalhadores qualificados por meio da nova Lei de Imigração, editada em 2017. Porém, destaca ela, é preciso avançar na normatização de pontos específicos a fim de tornar mais atraente a vinda de estrangeiros para o país. "O Brasil, inteligentemente, pensou nessa abertura com a nova Lei de Imigração. O problema é que, passados cinco anos depois de sua sanção e regulamentação, não há um normativo, não há um artigo ou parágrafo criando uma facilitação para mão de obra especializada. Não conseguimos definir nenhuma necessidade até o momento, enquanto o mundo faz isso", assinala.


Para ela, que é vice-presidente da Associação Brasileira de Especialistas em Imigração (Abemmi), é importante que o governo amplie as alternativas e fale para o mercado qual é a carência atual, que especialistas o país precisa. "Nesses casos, dispensa-se a reserva de mercado. Pode-se seguir, também, o modelo adotado por Portugal: as pessoas vem para o país por um determinado período, procuram trabalho e, depois, regulamentam a permanência. Essa abertura ainda não foi normatizada", explica. Ela acredita que é possível avançar em vários pontos por meio do Conselho Nacional de Imigração, que se reúne a cada dois meses.


Tanto Diana quanto Renato e Adriana creem que o Brasil perde ao se manter tão fechado para o ingresso de mão de obra estrangeira qualificada. Há vários estudos que demonstram que os países com taxas mais elevadas de imigração têm a economia mais aquecida. "É um ciclo virtuoso. As pessoas querem emigrar para países com economias mais aquecidas. Na medida que migram, a atividade produtiva se reforça, atrai mais investimentos", frisa a CEO da Fragomen. "Há países que, se limitassem a entrada de trabalhadores estrangeiros, o Produto Interno Bruto (PIB) seria 10% menor", emenda.


Um dos argumentos usados por aqueles que veem com ressalva a entrada de trabalhadores estrangeiros no país é a elevada taxa de desemprego — mais de 9 milhões de brasileiros estão sem emprego. Para os especialistas, a taxa de desocupação não é afetada pelos imigrantes especializados. "Não vemos esse impacto", frisa Diana. "Quando se busca mão de obra especializada no exterior é porque se precisa desenvolver habilidades que, geralmente, os locais não têm", completa. Há ainda, formas de blindar os trabalhadores nacionais, definindo, por exemplo, um prazo para que os trabalhadores estrangeiros permaneçam no país.


Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/euestudante/trabalho-e-formacao/2022/12/5057146-estrangeiros-ocupam-espaco-no-brasil.html

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